Auréola

A auréola é um símbolo muito conhecido na cultura ocidental, graças à influência católica e à associação quase automática que fazemos dela com anjos e santos, seres considerados espiritualmente mais elevados.

Mas, você sabia que várias outras religiões também representaram ou representam auréolas nas suas pinturas e esculturas, e que os seres coroados com elas podem variar em relação aos do catolicismo? E que a representação dela nas artes europeias começou obedecendo a imposições religiosas, mas que, com o tempo, foi se acomodando às necessidades e desejos dos artistas?

Para descobrir isso e muito mais, continue a leitura!

O que é auréola 

A palavra “auréola” vem do grego, e é um diminutivo para “ouro”. Ela também pode ser chamada de halo, nimbo, mandorla, glória, ou, para alguns estudiosos antigos, até mesmo ser a aura da pessoa. Ao longo da história das artes, ela foi aparecendo de formas diferentes, observe algumas:

  • Halo: este formato pode se apresentar como uma simples irradiação solar no rosto do personagem, ou seja, não tem uma forma geométrica;
  • Mandorla: é a auréola que envolve o resto do corpo;
  • Nimbo: do latim nimbus, nuvem – uma nuvem dourada que envolve a cabeça do cingido;
  • Triangular: a que é dada especificamente a Deus-Pai no cristianismo, como representação da Santíssima Trindade;
  • Elíptica: é a mais conhecida dentro da Igreja Católica – por oposição à circular, que era um disco dourado atrás da cabeça, esta cinge o topo da cabeça, como a tonsura usada por alguns religiosos católicos. A auréola neste formato quer representar a luz espiritual daquele personagem.

E seus significados também variam levemente de cultura para cultura. De modo geral, ela cinge a cabeça ou o corpo de personalidades que representam os valores tidos como os mais altos para o modo de pensar do seu povo. Vamos continuar falando sobre isto no próximo tópico.

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Significado do símbolo da auréola 

O objetivo sempre foi marcar nas obras seres espiritualmente mais elevados – é como se, ao mencionar determinado ser, não se pudesse deixar de fazer referência ao estado de espiritualidade elevada que atingiu, que o difere das pessoas comuns, que não têm ou tiveram o mesmo nível de devoção ao sagrado, ou predisposição à abertura da alma. A auréola as acompanha como um título ou coroa que conquistaram. Quando contornam a cabeça, para muitas culturas, destacam a parte mais nobre do ser humano, a parte responsável por sua iluminação.

Já entre os sumérios, uma das mais antigas civilizações cujos registros escritos chegaram ao nosso conhecimento, falava-se em melan, palavra emprestada do arcadiano melammu, um contorno visível de luz exalado por deuses, heróis, templos e outros símbolos dos deuses, e às vezes também por reis.

Halos aparecem há muito tempo em civilizações na Índia, China e Japão. Na Índia, monarcas do Império Cuchana foram os primeiros a se fazerem representar em moedas com halos, entre 30 a.C. e 200 d. C. O formato de nimbo pode ter surgido entre os chineses, e ele logo se espalhou para o Extremo Oriente e Ocidente.

Porém, a auréola se destaca mesmo é na iconografia budista dos três países, na qual costumava ser representada atrás da cabeça, como um disco, e envolvendo o corpo todo, encostando-se com a outra na altura da cabeça ou do pescoço, de Buda e de seres como deuses, santos e monges.

Os raios de luz irradiados dessas primeiras auréolas podem criar ainda outra. Outro destaque é que as mandorlas podem ser desenhadas na forma de labaredas, inclusive às vezes com fumaça e movimento das chamas pelo vento, e com outras cores, como branco, amarelo ou vermelho. Na arte budista tibetana, no entanto, há distinção de cores para Buda, deuses e santos (verde) e monges (laranja).

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Homero descreveu, na “Ilíada”, uma luz sobrenatural sobre a cabeça dos heróis nas cenas de batalha, o que também apareceu em pinturas, como em algumas de Perseu indo matar a Medusa. Na Roma Antiga, auréolas marcavam a cabeça dos heróis e deuses e de figuras míticas como esfinges, monstros, ninfas, ou seja, de figuras consideradas sagradas. Mais tarde, com a fusão de culturas criada por Alexandre, o Grande (o helenismo), imperadores foram representados com halos, primeiro apenas os mortos, depois os vivos, costume provavelmente adotado dos persas, e que desapareceu quando o cristianismo virou a religião oficial de Roma.

Nas artes islâmicas, influenciadas tanto pelo judaísmo, cristianismo e budismo quanto pelos persas, mongóis e otomanos, quem costumava receber auréolas eram pessoas consideradas sagradas, como o Profeta Maomé e os anjos que o acompanhavam. A partir do século XVII, alguns reis e imperadores mongóis também passaram a ser representados com esta distinção – persas e mongóis representavam assim pessoas que tinham o carisma, considerado uma dádiva dos deuses.

Nas artes cristãs

Quem recebia esta distinção no início da cristandade eram: Jesus, Deus, o Espírito Santo (as pessoas divinas, pois eram a Santa Trindade, incluindo suas representações, como, respectivamente, o cordeiro, a pomba e a mão brotando dos céus), benefício que depois foi passando para a Virgem Maria, anjos, santos, evangelistas e mártires, canonizados oficialmente ou não. Quando contornava a cabeça de alguém ressuscitado, indicava que essa pessoa estava a meio caminho entre a terra e o céu, ou seja, não poderia ser mais considerado como alguém comum.

As principais auréolas usadas na iconografia da Igreja Ortodoxa foram:

  • Quadrada: dava-se esta auréola às pessoas consideradas santas quando ainda estavam vivas. Isto obedecia a uma ideia antiga de representação: o quadrado representava a terra;
  • Circular: era dada aos santos já mortos, pois o símbolo do céu era o círculo;
  • Cruciforme: em forma de cruz, coroava as pessoas da Trindade.
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No início, era representada como um disco dourado em volta das cabeças, incluso quando elas estavam viradas de lado, e não de frente para o espectador. Isso começou a mudar, no catolicismo, quando os pintores quiseram flexibilizar as normas de composição nas suas obras, mostrar mais realismo nelas em vez de copiar modelos prontos, e passaram a valorizar a descoberta da perspectiva, pois as grossas auréolas atrapalhavam a harmonia das composições.

Alguns artistas ousaram soluções como não representar todos os santos e anjos de auréola (ou seja, colocá-la em apenas um grupo), ou ir diminuindo o tamanho dela, que foi a principal solução que vingou, até chegar, no século XIX, a um anel formado por um fio dourado.

Com o tempo, no Ocidente, a associação auréola anjo se tornou automática, fazendo-a se tornar simplesmente um símbolo de uma pessoa muito boa, sobretudo na cultura pop. Curiosamente, por causa exatamente dessa ligação com o maniqueísmo, que hoje é bastante questionado, esse significado da auréola de anjo também pode ser usado de forma irônica: representar alguém que quer se passar por bonzinho, mas que na verdade não o é.