Tatuagem

A tatuagem, além de ser vista como um símbolo, ou seja, algo que remete a um conjunto de valores, também deve ser considerada como uma prática. Ao longo da sua história, tatuadores e tatuados foram reconhecidos como pessoas de prestígio, de péssimo nível social, pecadoras, transgressoras, artistas que praticavam o culto à própria imagem e, hoje, pode-se dizer que ela está presente na pele de pessoas de todas as condições sociais, crenças religiosas e idades, apesar de ainda persistir o preconceito em certos contextos.

tatuagem símbolo

Neste texto, vamos percorrer um pouco desta história, em busca de toda a simbologia da tatuagem, sobretudo atualmente. Continue lendo!

História da tatuagem

O corpo tatuado mais antigo encontrado tem 5 mil anos, de Oetzi ou Ötzi, o homem de gelo encontrado nos Alpes, entre a Itália e a Áustria, em 1991. Suspeita-se que as tatuagens deste homem, mumificado no gelo, tenham relação com algum ritual mágico de que ele houvesse participado relacionado à cura, por estarem em pontos de ataque da artrite. Inúmeros outros povos pagãos europeus e asiáticos (egípcios, polinésios, chineses, japoneses, celtas etc.), já se tatuavam por volta de 2 mil antes de Cristo, pelos mais diversos motivos:

  • Mostrar que pertenciam a um determinado povo ou clã (ou seja, apontar quais eram seus ancestrais);
  • Indicar que passaram por algum estágio de desenvolvimento, como o da infância para a idade adulta.
  • Proteger-se de maus espíritos;
  • Participação em rituais mágicos de cura ou para adquirir mais poder (avanço na jornada espiritual);
  • Para marcar pessoas consideradas socialmente inferiores, como escravos ou criminosos. Isso podia acontecer tanto pelo tipo de tatuagem que a pessoa tivesse, como pelo simples fato de possuir uma tatuagem.

Durante boa parte da história, portanto, ela não teve função estética. Era uma linguagem, a história de vida de uma pessoa escrita em sua própria pele. Algo a não se perder de vista nestes povos é que a tatuagem era um ritual coletivo, ou seja, feito diante de toda a população.

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Estigmatização da tatuagem

O passo decisivo para o preconceito contra a tatuagem surgiu a partir da expansão do cristianismo pela Europa, onde também havia muitos povos que se tatuavam. Portanto, um dos motivos para a Igreja ser contra era o desejo de distinguir os cristãos dos pagãos. Além disso, o fato de estar escrito na Bíblia que “o corpo é o templo do Espírito Santo” foi usado como razão para se considerá-la um pecado, porque ela modificava esse templo, criado por Deus, ideia que já estava presente no judaísmo e que se manteve em parte do islamismo. Para completar, a Igreja adotou como prática tatuar pecadores que excomungava.

Com o passar do tempo, isso foi adotado também pelo governo de alguns países, que passaram a marcar assim os criminosos, coisa que é mencionada, por exemplo, no romance “Os três mosqueteiros”, de Alexandre Dumas, que se passa no século XVI.

Só se voltou a ver tatuagens na Europa a partir da segunda metade do século XVIII, quando a expedição do capitão James Cook, que tomou posse da Austrália em nome da Inglaterra, se fez tatuar ao entrar em contato com os polinésios. Aliás, foi o próprio Cook quem criou a palavra tattoo, corruptela inglesa para tattaw. A partir daí, portanto, ela foi relacionada com piratas, o que não contribuiu para melhorar sua reputação, pois a maioria deles já havia estado na cadeia e sequer podia desembarcar de volta em seus países, sob risco de morrerem por seus crimes. Entre eles, as tatuagens simbolizavam os lugares pelos quais haviam passado.

No século XX

Nessa época, no mundo ocidental, a tatuagem estava disseminada por grupos socialmente marginalizados: marinheiros, piratas, prostitutas, presidiários, artistas de circo. Portanto, o valor social da tatuagem ainda era péssimo.

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A partir dos anos 1950, quando se criou a adolescência como um valor de mercado e a rebeldia começou a ser incentivada, diferentes grupos se apropriaram dos valores destes marginalizados, acrescentando a contestação como significado das tatuagens, para mostrar que não se deixariam guiar pelos valores de seus pais, para eles considerados falidos desde a Grande Guerra, que tinha acabado de acontecer. Alguns destes grupos foram: roqueiros, hippies, punks, metaleiros etc., incluindo os artistas que os representavam, principalmente cantores.

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Principalmente a partir de 1980, cantores do cenário pop também adotaram tatuagens, transformando isso em culto à própria personalidade, o que ajudou a popularizá-las na atual sociedade de consumo.

Tatuagem e religião

Como as três grandes religiões monoteístas do mundo condenam a tatuagem:

  • Judaísmo: é terminantemente proibida, pela ideia de que ela altera o corpo, templo sagrado criado por Deus. Pessoas tatuadas não são enterradas em cemitérios judeus. No entanto, durante o nazismo, muitos judeus acabaram tatuados em campos de concentração, como forma de ofender esta fé religiosa.
  • Cristianismo: a maioria das igrejas cristãs proíbe, pela mesma razão dos judeus, porém as de orientação mais conservadora são as mais radicais nesse sentido. Paralelamente, existem as instituições como a Bola de Neve, que não se importam com as tatuagens dos fiéis.
  • Islamismo: enquanto a corrente sunita considera um pecado grave modificar o templo criado por Deus, o xiismo adota tatuagens em certos rituais.

Já religiões como o hinduísmo incentivam a tatuagem de um terceiro olho na testa e de pontos no rosto, para se obter boa sorte.

De resto, uma das categorias de símbolos de maior sucesso é a religiosa, principalmente de religiões pagãs: maori, xamanismo, celta etc. E, apesar das proibições, curiosamente muitas pessoas tatuam símbolos judeus, cristãos ou islâmicos, como forma de pedir proteção ou mostrar qual sua fé religiosa.

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Simbolismo da tatuagem atualmente

A tatuagem perdeu grande parte do significado sacro que um dia teve, seja porque as religiões que sustentavam isso foram destruídas ou alteradas, seja porque ela foi incorporada à sociedade ocidental do século XXI. Quando ela passou a ser associada ao culto à personalidade por celebridades, perderam também muito do seu significado contestador.

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Hoje, o símbolo da tatuagem quer dizer a procura de uma expressão da própria individualidade: a pessoa representa no próprio corpo não necessariamente sua história de vida, mas o que ela mais valoriza da cultura à qual tem acesso: símbolos religiosos, destaque de alguma característica única, letras de música, homenagens a pessoas que passaram por sua vida, vivas ou mortas, ligação com ou simpatia por algum movimento cultural ou filosofia de vida, desenhos que acham que as simbolizam de algum modo (animais, plantas, elementos como rosa-dos-ventos, diamante etc.). Apesar de não mais representarem o desejo de acabar com os valores tradicionais, alguém tatuado ainda pode ser visto como rebelde.

Ao contrário do passado, hoje o ritual da tatuagem não é mais coletivo, acontece apenas entre tatuado e tatuador. A profissão de tatuador é reconhecida como artística, e há padrões legais de higiene aos quais seu estúdio deve se adequar. Quanto mais um tatuador se preocupa que seu trabalho tenha valor artístico, mais se preocupa com a motivação do seu cliente em fazer a tatuagem, diferenciando entre os que fazem para seguir a moda ou entre os que querem realmente expressar sua subjetividade.