Unicórnio

O unicórnio, também chamado licórnio ou licorne, é um ser mitológico muito antigo, com algumas características que sempre se repetem: são cavalos alados brancos com um chifre espiralado na testa associados à pureza, inocência, beleza, bondade, amor à liberdade, ser extraordinariamente raro e fantástico, encantador e misterioso.

símbolo unicórnio

Ainda assim, foi e continua sendo revestido de diversos significados ao longo de sua história, não raras vezes antagônicos:

  • símbolo de castidade e de liberdade de práticas e de parceiros sexuais;
  • pureza de valores morais e os desejos que levam os homens ao inferno;
  • conjugação do masculino e do feminino; símbolo da masculinidade; da feminilidade; e até de quem não se define por um único gênero;
  • apropriações espiritualistas e mercadológicas.

Portanto, conhecer a simbologia do unicórnio é uma deliciosa viagem pela história, pois cada época e povo o significou conforme o que considerava mais importante. Esta é a proposta deste texto. Vamos lá?

Possível origem do Unicórnio

Apesar da imagem que normalmente temos do unicórnio, o animal que costuma ser apontado como sua inspiração mais provável é um antílope com dois chifres no meio da testa, porém tão juntos que facilmente são confundidos com um. Conhecido como elasmoterio ou unicórnio siberiano, é um parente distante do rinoceronte, e viveu em boa parte da Ásia, entre a Sibéria e o norte da China. Como foi extinto há 30 mil anos, há estudiosos que afirmam que alguns dos seus exemplares possam ter convivido com humanos, o que teria começado a originar lendas.

A palavra “unicórnio” vem do latim, unicornis, e significa literalmente “um chifre” – em grego, a palavra é monokeros. Assim, existe a hipótese de que muitos relatos de viajantes antigos afirmando que viram uma besta com um único chifre podem ser confusões com rinocerontes, búfalos, bois selvagens de perfil entrevistos de verdade ou em gravuras e esculturas, visto que o termo “unicórnio” é genérico.

Por conta desta característica da palavra, ela aparece seis vezes no Antigo Testamento, como símbolo de grande força bruta ou poder. Mas, atualmente, já se sabe que isso foi erro de tradução do termo hebraico Re´em, que começou na tradução da Bíblia para o grego (Septuaginta), e depois, quando esta versão foi traduzida para o latim (Vulgata) a palavra virou “rinoceronte”. Tanto que a versão de Martinho Lutero da Vulgata para o alemão traduz esta palavra para “um chifre”. Versões mais contemporâneas da Bíblia vertem para “boi selvagem” ou “búfalo” para evitar a associação com o ser mitológico.

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Unicórnio na China Antiga

Esta foi uma das primeiras culturas a registrar histórias com o unicórnio. Nela, ele foi um dos quatro animais que ajudou a criar o mundo, portanto é um símbolo de boa sorte, e da pureza de valores morais, que não pode ser corrompido. Geralmente ajuda a lutar contra o mal, golpeando os vilões com seu chifre.

Mas existe outro significado, mais profundo: o unicórnio simboliza o ser que tem as forças naturais masculinas e femininas igualmente desenvolvidas, portanto, não tem gênero definido. Tanto que a palavra chinesa para ele é ki lin, a mesma para yin yang.

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Unicórnio na Grécia Antiga

A lenda começou antes de Cristo, com os relatos de alguns viajantes, como o médico Ctésias, por volta de 400 a. C., que dizia ter avistado o unicórnio onde hoje é a Índia.

Mas o documento grego considerado o mais importante para a fundamentação desta lenda é o “Phisiologus”, bestiário escrito no segundo século depois de Cristo. Neste livro, ele aparece pela primeira vez como um cavalo branco com um chifre associado à pureza – por ser indomável, só uma mulher virgem conseguiria capturá-lo.

Ele continuou sendo considerado também símbolo de boa sorte, mas de uma maneira diversa da dos chineses: se um viajante o encontrasse, isso queria dizer que seu objetivo com aquela viagem se cumpriria, porque era extremamente raro encontrá-lo. Assim, com o tempo, muitos viajantes gregos passaram a levar consigo imagens de unicórnios.

Unicórnio na simbologia cristã

A hipótese mais provável é que a visão do unicórnio na era medieval veio da civilização grega. Nessa época, graças à história de que somente uma virgem conseguiria dominar a criatura, ele foi transformado definitivamente em ícone da castidade.

Com o tempo, também foi visto como sinal do mistério da fecundação da Virgem Maria pelo Espírito Santo, ele representando Maria e seu chifre representando a ponte com o (ou penetração do) divino. Posteriormente, principalmente nas inúmeras gravuras retratando uma virgem capturando um unicórnio, a simbologia passou a dizer que o unicórnio era Jesus Cristo e a virgem era uma representação da Virgem Maria.

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Unicórnio para os escoceses

Na Alta Idade Média, os celtas, que deram origem aos escoceses, viam no unicórnio atributos como a força, a nobreza e o amor à liberdade, razão pela qual ele virou um símbolo de masculinidade e foi representado em brasões heráldicos, moedas e histórias de cavalaria. Atualmente, os escoceses são representados pela figura do unicórnio no brasão do Reino Unido, e têm até um Dia do Unicórnio: 9 de abril.

A partir do Renascimento, aconteceram algumas mudanças significativas no conceito de unicórnio. A Igreja tinha perdido poder, então a cultura estava mais profana. As imagens da virgem com o unicórnio passaram a significar, diante do afloramento do amor cortesão, o cavalheiro que encontra sua amada. Mas, por isso, para certas pessoas, o símbolo do unicórnio passou a significar os desejos que levavam as pessoas para o inferno, portanto ele passou a ser considerado maldito.

Nos séculos XX e XXI

Na Nova Era, corrente que mistura preceitos de filosofias orientais, paganismo e ocultismo e que floresceu na contracultura das décadas de 1960 e 1970, o unicórnio passou a simbolizar a liberdade sexual, por ser assexuado: a possibilidade de ser heterossexual, homossexual, bissexual, pansexual etc. Ou práticas sexuais, como sexo grupal, fornicação, sexo sem compromisso etc.

Mas muita gente que usa sua imagem hoje o faz por acreditar exclusivamente no seu significado espiritual, dizendo que ele tem todos os atributos originais da alma humana: desejo de liberdade, pureza, altruísmo, generosidade, pleno de mistérios, íntegro, incorruptível.

E existem os espiritualistas que o usam como um símbolo da união do espiritual com o carnal, de que os desejos do homem estão mais próximos do divino, e assim essa pessoa está conseguindo se apropriar da sua verdadeira essência.

Mais modernamente existem pessoas que se dizem “unicórnios”, o que quer dizer que não se definem como homem, mulher ou trans, ou seja, não conseguem se definir num gênero específico.

Pode ter sido este público que causou o “boom” dos últimos anos no mercado de estampas de unicórnios em camisetas, tiaras e inúmeros outros objetos de decoração, e mesmo filmes, livros e jogos, ao compartilhar imagens desses seres, que, neste contexto, aparecem coloridos, principalmente a crina e a cauda misturando várias cores alegres e suaves.

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Tatuagem de unicórnio

Destaca-se aqui a tattoo de unicórnio, curiosamente considerada feminina. As mulheres que a fazem querem representar feminilidade, graciosidade, espiritualidade e talvez até ludicidade.

De qualquer forma, o unicórnio no universo infantil foi resultado de uma associação comercial que começou muito antes, mais discretamente, em livros de autores de fantasia como Lewis Carroll (século XIX), C. S. Lewis e, mais recentemente, J. K. Rowling. Nos anos 1980, aparece em desenhos animados como She-ra e A caverna do dragão.

Portanto, algumas das características mais prezadas nestes seres hoje são a inocência e a ludicidade infantis, ideias bastante reforçadas pelo comércio.

Unicórnio no mundo dos negócios

Outra apropriação importante da figura do unicórnio vem do mundo dos negócios: hoje se chama assim a uma startup que começou a render um bilhão de dólares antes de abrir seu capital para o mercado de ações, porque isso é tão difícil de conseguir quanto ver um unicórnio de verdade. Mas só podem se chamar assim as startups da área de tecnologia, porque elas precisam fazer algo extraordinário para conseguir esse feito.

Algumas das startups mais conhecidas são Facebook, Dropbox, Google etc.

Outras curiosidades sobre o unicórnio

Foi entre os gregos que o sangue do unicórnio ganhou poderes curativos: era considerado um elixir que prolongava a vida ou salvava pessoas à beira da morte, lenda que continuou viva na Idade Média, entre os alquimistas.

O chifre, considerado a parte mais importante do seu corpo, tinha o poder de devolver a pureza ao que tocasse, assim espantando o mal, as trevas, a sujidade. Acreditava-se que num cálice feito de chifre de unicórnio uma bebida envenenada perderia seu efeito.

Aliás, o chifre do unicórnio é responsável por grande parte das ambiguidades do seu simbolismo. Ele pode significar, dependendo da época e do lugar, bissexualidade, seres hermafroditas, fertilidade, penetração do divino no humano (tirando a virgindade carnal) e agente de pureza.